v. 8 n. 2 (2024): Revista Eletrônica Direito & Conhecimento, v. 8, n. 2, jul./dez.2024, Arapiraca/AL
O conhecimento científico tem avançado significativamente nos últimos anos, impulsionado, sobretudo, pelo desenvolvimento das novas tecnologias computacionais — com destaque para as diferentes formas de inteligência artificial generativa. Essas ferramentas têm acelerado a construção do saber, por meio da leitura e processamento de dados, da interpretação de resultados estatísticos, da revisão e da elaboração textual, entre tantas outras funcionalidades.
Com isso, áreas como o Direito ganham novos campos de investigação, voltados a enfrentar os desafios regulatórios que emergem cotidianamente do ambiente social em constante transformação. Em outras áreas do conhecimento, como a Psicologia, os desafios se multiplicam e, por vezes, entrecruzam-se com os caminhos jurídicos — como nas situações em que direitos individuais são violados — ou seguem direções autônomas, exigindo a investigação profunda de distúrbios oriundos da complexidade da condição humana.
Esses desafios, que ilustram o momento atual da produção acadêmica, resultam em uma ciência mais ampla e diversificada, favorecida por um acesso inédito à informação e às possibilidades de publicação. No entanto, esse fenômeno não se traduz, necessariamente, em um salto qualitativo. Paradoxalmente, o que temos observado no cenário editorial é um declínio na qualidade de muitos textos, ora marcados pelo uso excessivo de ferramentas automatizadas, ora empobrecidos por uma fragilidade metodológica que compromete sua cientificidade.
Esse cenário revela uma tensão latente entre o acesso à informação e a construção efetiva do conhecimento. O efeito desse paradoxo é perceptível: perde-se a capacidade cognitiva mais básica e essencial — a de produzir conexões, elaborar ideias originais e criar novos caminhos. Afinal, as ferramentas tecnológicas hoje disponíveis não apenas respondem aos nossos dilemas, mas tendem a pensar por nós, condicionando nossas ideias aos fluxos dominantes de pensamento vigentes em determinada época.
Diante disso, impõe-se uma pergunta crucial: que rumo a academia deve tomar diante dos grandes desafios que se impõem à produção intelectual? Que caminhos podemos trilhar enquanto professores, estudantes, pesquisadores, editores — ou mesmo, curiosos? Talvez a resposta esteja, como sugere o princípio da Navalha de Occam, na simplicidade: voltar à leitura ativa, ao estudo comprometido, à pesquisa rigorosa. Ferramentas como o ChatGPT não devem pensar por nós. Antes de utilizá-las, precisamos — como foi proposto pela escola de Paulo Freire — “aprender a aprender”. É imperativo manter viva a curiosidade científica, o desejo de compreender a origem e as causas dos problemas que nos cercam, redescobrir autores, interpretar suas ideias, cruzar dados, atribuir-lhes sentido e, sobretudo, propor respostas genuínas aos desafios que ainda afligem a humanidade.
Esse, por mais surpreendente que pareça, não é o caminho mais fácil. Temos remado contra a correnteza — uma correnteza veloz e invisível, movida por algoritmos que nos empurram a pensar de forma homogênea ou a reproduzir respostas predefinidas por máquinas. Nosso desafio, portanto, é seguir produzindo ciência com e apesar das novas tecnologias, mantendo viva a capacidade crítica que nos constitui como humanos.
É com esse espírito que convidamos nossos leitores e autores a continuar trilhando esse percurso de busca e aprimoramento, por meio da leitura da nova edição da Revista Eletrônica Direito e Conhecimento. Esta publicação reflete nossa genuína preocupação com a produção científica séria, comprometida com a qualidade e a originalidade. Trata-se de um contraponto consciente à revolução tecnológica em curso — não para negá-la, mas para integrá-la de forma crítica à trajetória do pensamento jurídico e às áreas interdisciplinares que o compõem. Afinal, o Direito é, também, um fenômeno social, inscrito em uma realidade em constante mutação, da qual emergem, incessantemente, novos objetos a serem compreendidos, regulados e transformados.
Boa leitura a todos!
Carla Priscilla Barbosa Santos Cordeiro
Editora da REDC